O retorno à casa de Israel Recifenses com ancestralidade judaica estão em busca do reconhecimento como judeus

Rebeca Silva
rebecasilva.pe@dabr.com.br

Publicação: 19/01/2014 03:00

A Sinagoga Kahal Zur Israel, na Rua do Bom Jesus, é a mais antiga das Américas (ALCIONE FERREIRA/DP/D.A PRESS)
A Sinagoga Kahal Zur Israel, na Rua do Bom Jesus, é a mais antiga das Américas

Na casa do contador Nilton Campelo e dos três filhos, Hugo, Olavo e Lucas, as regras são duras e a disciplina é grande. Eles não comem carne de porco nem alimentos fermentados e de trigo durante a páscoa. Toda sexta à noite rezam, cantam músicas em hebraico e comem em família. No sábado, mais orações. Com o aparecimento das três primeiras estrelas no céu eles iniciam um ritual. Uma vela trançada é acesa e a oração da havdalá é cantada. Ela serve para abençoar o restante da semana e separar o sagrado (o sábado) do profano (os demais dias da semana). Os costumes praticados por eles são judaicos. Mas, oficialmente, eles não são considerados judeus pelos mais tradicionais e ortodoxos membros da comunidade Judaica organizada, embora seu filho Olavo tenha estudado o ensino médio na Yeshivá, uma escola rabínica em Israel.
Chamados de b’nei anussim – em hebraico, filhos dos “forçados” – eles fazem parte de uma parcela da população recifense que ao descobrir uma possível ancestralidade judaica, retoraram à Casa de Israel. E agora tudo que querem, além de viver como manda a lei religiosa judaica, é serem reconhecidos. Isso significa ter privilégios, como poder morar em Israel, poder entrar em qualquer sinagoga e ser enterrado em cemitério judaico.

Para Nilton Campelo, “a sede de judaísmo do retornado é muito maior do que a do judeu que cresceu na religião.” Criado no catolicismo mas tendo, estranhamente, aos oito anos de idade, se recusado a fazer primeira comunhão, sua inquietação espiritual levou-o a várias outras religiões. Mas nada o satisfazia até ser atraído pelo judaísmo há cerca de 13 anos. “Procurei um conhecido judeu da cidade e fui parar em uma sinagoga. Na época, nem desconfiava de minha ancestralidade judaica. Hoje, meus filhos também seguem”, disse.
Contador Nilton Campelo passou a seguir a tradição judaica em família há 13 anos (BERNARDO DANTAS/ DP/D.A PRESS)
Contador Nilton Campelo passou a seguir a tradição judaica em família há 13 anos

Pela lei judaica, o que define um judeu é a linhagem materna. Ou seja, para uma pessoa ser judia, a mãe também tem que ter nascido judia. Embora seja comprovado que houve uma grande contingente de judeus portugueses perseguidos pela inquisição e forçados a se converter ao catolicismo que aportou no Recife há cerca de 600 anos, a maior dificuldade dos marranos, como também são chamados, é comprovar sua ancestralidade. Alguns detalhes como o sobrenome (nomes de árvores e animais - Oliveira e Carvalho, por exemplo -, adotados para despistar os inquisidores) e costumes, como a crença de que apontar estrelas dá verrugas - As estrelas servem para iniciar e encerrar o Shabat, contá-las era perigoso no Séc.XVII - são formas que ajudam a identifica-los. Mas, mesmo seguindo a tradição e tendo esses sobrenomes, para ser considerado judeu é preciso passar pela conversão liberal ou ortodoxa. Ambas são feitas através de um tribunal em que cada caso é avaliado. A diferença entre elas é que o ortodoxo tem “regras mais duras”. Outro problema é que a conversão ortodoxa no Brasil é muito rara e boa parte das comunidades ortodoxas e alguumas liberais não aceita os marranos como judeus.

No incício do ano, o rabino moré Gilberto Ventura, da comunidade tradicional e ortodoxa de São Paulo, visitou estados como Pernambuco, Fortaleza, Bahia, Natal e Paraíba, locais para onde migraram muitos judeus durante o Brasil colonial . O intuito foi levar ao conhecimento da comunidade paulista a existência dos marranos nordestinos e tentar diminuir a distância entre eles. Em Pernambuco, acredita-se que há pelo menos 200 pessoas dispostar a viver nos moldes da Lei Judaica. “Vim saber o nível de cumprimento de cada um e ajudá-los a se articularem entre si. É muito bonito ver a luta deles de buscar sua raiz”, afirmou Ventura.

Segundo a coordenadora do núcleo de pesquisa do museu sinagoga Kahal Zur Israel, Tania Kaufman, a comunidade judaica no Recife, em geral, é liberal. Ela destaca que é preciso questionar o conceito. “Nos tempos contemporâneos deve-se continuar achando que judeu é aquele de origem biologica ou é aquele que se sente judeu? Mas também é preciso viver de acordo com o antigo testamento, que acredita que o messias ainda virá”, pontuou.

Saiba mais

1492
Os judeus que viviam na Espanha fogem do país após os reis católicos Fernando Aragão e Isabel de Castella darem a opção de sair do país ou se converter ao cristianismo

1497
Boa parte fugiu para Portugal. Lá, Dom Manuel I, após pressão da Espanha e da Santa Sé, obrigou os judeus a se converterem ao cristianismo. Eles foram chamados de cristãos-novos. Dom Manuel escolheu não expulsar os judeus porque eles
tinham importância na expansão marítima

1500- 1530
Época de maior presença de cristãos-novos no Brasil. Eles vieram com navegadores, como Pedro Álvares Cabral, ou degredados (aqueles que não tinham boa relação com a religião). Foi neste período também que teve o início da colonização portuguesa no Brasil. Em Portugal, era instaurado a inquisição e o Brasil acabou se tornando bem católico e, consequentemente, hostil para judeus

Os conversos ao cristianismo se espalharam. Foram basicamente para o Nordeste em estados como Pernambuco, Bahia, Paraíba e Rio Grande do Norte. Estavam integrados em todos os segmentos da população local. Estavam nos engenhos, no comércio, em postos oficiais

1630
Os holandeses invadem Olinda e Recife. Muitos judeus que fugiram para a Holanda, onde havia liberdade religiosa, migraram para o Recife

Com a chegada dos holandeses, durante o governo de João Maurício de Nassau, abre-se a prática livre e muitos que viviam o judaísmo clandestinamente retomam a religião. Eles, juntamente com os que vieram da Holanda, formaram congregações, como a Kahal Zur Israel, primeira sinagoga das Américas

1654
Com o declínio do governo holandês e a reinstituição do regime português, a comunidade judaica de Recife teve três meses para vender seus pertences e ir
embora em quaisquer navios disponíveis. As sinagogas foram fechadas e as leis mosaicas foi proibidas, terminantemente.

Um pequeno grupo, cerca de 23 famílias, foi em direção ao Caribe e América do Norte, onde estabeleceram um lugar chamado de Nova Amsterdã, constituindo a primeira comunidade judaica organizada naquela região. O local hoje é a cidade de Nova York.
Os que não fugiram, continuaram o judaísmo secreto

1700
A inquisição em Portugal e Espanha continuava. No Brasil, eles continuaram se organizando clandestinamente

1819
A conhecida Rua dos Judeus, ganha o nome de “Bom Jesus”. Antes, a via era denominada de Rua da Cruz. Lá, funcionava duas escolas religiosas: Talmud Torah eEtz Hayim, além da sinagoga Kahal Zur Israel

1917
A atual Ponte Maurício de Nassau é inaugurada, marcando a importância da presença judaica durante o domínio holandês. O equipamento teve parte da construção feita pelo engenheiro judeu, Baltazar da Fonseca, em 1642.

1927
É fundado o Cemitério Israelita. Ele está localizado próximo à Igreja do Barro, e ao lado do Cemitério Paroquial do Barro

1997
Começam as obras de recuperação das ruínas da sinagoga, que passou muitos séculos escondida sob muitos pisos. Para localizar as dependências do templo judaico foi preciso remover 750 toneladas de terra e mais de 1.000 metros quadrados de reboco.

2001
Sinagoga Kahal Zur Israel é reaberta ao público na Rua do Bom Jesus

2003
É fundada a Beith Shmuel, a sinagoga dos marranos. Localizada na Rua Marquês de Amorim, na Ilha do Leite, o templo oferece cursos de Talmud e Torá, além das atividades religiosas

Dias atuais
Cerca de 200 pessoas em Pernambuco descobriram suas raízes judaicas e retornaram à Casa de Israel. Além de viver como manda a lei judaica, eles querem ser reconhecidos pelos mais tradicionais e ortodoxos membros da comunidade Judaica organizada
O retorno à casa de Israel Recifenses com ancestralidade judaica estão em busca do reconhecimento como judeus

Rebeca Silva
rebecasilva.pe@dabr.com.br

Publicação: 19/01/2014 03:00


Na casa do contador Nilton Campelo e dos três filhos, Hugo, Olavo e Lucas, as regras são duras e a disciplina é grande. Eles não comem carne de porco nem alimentos fermentados e de trigo durante a páscoa. Toda sexta à noite rezam, cantam músicas em hebraico e comem em família. No sábado, mais orações. Com o aparecimento das três primeiras estrelas no céu eles iniciam um ritual. Uma vela trançada...